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Gestão de Pessoas  
Nível médio predomina no mercado de trabalho
Entrevista concedida pelo Prof. Alberto Claro, ao Jornal A Tribuna de Santos, em 20.06.2005

Segunda-Feira, 20 de Junho de 2005, 07:00

Nível médio predomina no mercado de trabalho

Da Reportagem


Fabiana Honorato

Há cerca de um ano, Maurício Silva Alves iniciou uma jornada em busca de emprego tendo em seu currículo o diploma do Ensino Médio e a disposição dos 20 anos. Contratado desde o dia 1º como porteiro, o jovem é um dos milhares que engrossam o exército da chamada mão-de-obra não-qualificada, segmento que movimenta o mercado de trabalho na Cidade.
  Apesar dos números apontarem um saldo positivo de 2.198 admissões com carteira de trabalho assinada no 1º trimestre deste ano, quem procura por um emprego ainda esbarra na grande concorrência e nas exigências dos empregadores.
  ‘‘Está muito disputado. As exigências são enormes, principalmente na formação. Isso acaba dificultando, porque tem um monte de pessoas querendo a mesma vaga’’, afirmou Alves.
  Para trabalhar em um prédio, ele procurou uma empresa que terceiriza mão-de-obra e esperou dois meses pela entrevista. ‘‘Mas não deixei de ver outras opções enquanto passava pela seleção’’.
  O aumento das contratações de mão-de-obra não-qualificada segue uma tendência do mercado, como analisou o diretor da Empresa Brasileira de Prestação de Serviço (Embraps), José Renato Quaresma.
  Segundo ele, os empregadores querem profissionais cujas remunerações não sejam altas e, às vezes, trocam um funcionário capacitado por dois, ou até três, com salários bem menores.
  ‘‘Vem ocorrendo uma rotatividade grande, muita troca de pessoal, mas não acredito em criação de muitos novos postos. Já a mão-de-obra não-qualificada vem movimentando muito mais o mercado’’.
  Ele justifica a tese citando a saída de 23 funcionários da Embraps, o que motivou o mesmo número de admissões. ‘‘Mas isso não é criação de empregos’’.
  Ressaltando o baixo nível dos currículos entregues diariamente na empresa, o diretor assinalou que, apesar da concorrência, às vezes sobram vagas.
  ‘‘Num dia, entrevistamos 25 pessoas e apenas duas foram selecionadas para as oito vagas disponíveis. Muitos currículos não são aprovados’’, disse, frisando que, após ser escolhido, o interessado leva, em média, de 10 a 20 dias para ser contratado pela empresa.
  Quaresma ainda comentou que a adequação de salários de algumas funções também pode estar resultando no aumento das contratações. ‘‘O mercado vem buscando remunerações mais compatíveis com as funções. Tem porteiro que recebe R$ 1.800,00 e faxineiro com salário de R$ 1 mil. Esse equilíbrio gera mais vagas’’.
Sem planos
  Enquanto ainda comemora a contratação, o porteiro Maurício Silva Alves espera não precisar passar pela mesma maratona à procura de uma colocação. ‘‘Antes, não tinha nada fixo. É muito ruim ficar em casa, sem ter o que fazer e sem poder ajudar a família’’.
  Morando com mãe, ele ainda não tem planos para o primeiro salário, mas confessou que, depois de sentir na pele as exigências do mercado, investirá em sua formação.
  ‘‘Quero fazer uma faculdade, talvez de Educação Física. Mas desde que eu consiga conciliar os estudos com o trabalho, que agora é prioridade’’.
Tendência
  Segundo dados de maio do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em maio deste ano foram gerados 212.450 postos formais, sendo o setor de serviços responsável por 57.679 postos, 27,1% do saldo total.
  Em comparação com maio de 2004 esse segmento foi o único que registrou um saldo maior, batendo o recorde de 56.126 empregos do ano passado.

 

Segunda-Feira, 20 de Junho de 2005, 07:01

Estudante nem sempre percebe

Da Reportagem


 

  A falta de percepção dos estudantes universitários pelas áreas onde a oferta é maior que a procura foi apontada pelo coordenador de Pós-Graduação Latu Sensu da Universidade Católica de Santos (UniSantos), José Alberto dos Santos Claro, como a possível responsável pela dificuldade de colocação profissional.
  Lidando diariamente com os futuros profissionais que serão despejados no mercado de trabalho, ele argumentou que muitos jovens optam por carreiras onde a oferta de emprego está estagnada na Cidade.
  ‘‘Algumas carreiras tradicionais, como Direito, estão muito bem servidas, com muita gente disputando as vagas’’.
  Nessa concorrência pelo mercado, profissionais de nível superior que não tenham a qualificação esperada em sua área acabam aceitando remunerações inferiores, conforme destacou ele.
  Esse desequilíbrio na oferta de material humano para certos segmentos resulta na demora para preenchimento de vagas em funções ligadas ao meio ambiente, porto, logística e comércio internacional, entre outras.
  ‘‘A gente percebe que os estudantes estão se formando, mas sem capacidade de assimilar os postos disponíveis. Por incrível que pareça, às vezes é difícil achar até profissionais capacitados para o turismo de negócios na região’’.
  De acordo com ele, se a Cidade reforçar sua vocação tanto no aspecto turístico quanto no portuário, o mercado passará a exigir uma maior qualificação em todos os níveis de mão-de-obra. ‘‘Será exigido o conhecimento de uma segunda língua até por taxistas e garçons’’.

 

Segunda-Feira, 20 de Junho de 2005, 07:02

Alcindo Gonçalves ratifica tendência

Da Reportagem


 

  Coordenador geral do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT), o cientista político Alcindo Gonçalves confirmou a tendência da geração de empregos que absorvam a mão-de-obra não-qualificada e demandem baixos salários.
  ‘‘Isso é percebido em âmbito nacional e é reflexo de uma época de dificuldades na economia do País’’.
  Segundo ele, a Cidade também presencia um aumento na oferta de empregos para a mão-de-obra qualificada, mas as oportunidades oscilam de acordo com o cenário econômico.
  ‘‘Em Santos, o que se nota é que os setores portuário e de serviços têm gerado essas vagas para profissionais com outro nível de qualificação’’.
  Quanto à demora para o preenchimento de postos oferecidos em áreas que exigem um maior preparo, Alcindo ponderou que essa demanda vem sendo registrada há pouco tempo e é fruto de uma grande transformação pela qual o mercado de trabalho passa.
  ‘‘Isso vem ocorrendo em função das novas perspectivas da economia, mas é muito cedo para afirmar que faltam profissionais. Na verdade trata-se de uma mudança no perfil, é preciso dar um tempo para essa adequação’’.
  Nesse sentido, ele destacou que as universidades estão percebendo a necessidade de o profissional investir em sua capacitação de forma contínua e aumentaram as opções de cursos de especialização.
  Assinalando que as previsões de geração de empregos na região são boas, o cientista político ressaltou que alguns fatores podem alterar esse termômetro e influenciar na oferta de trabalho.
  ‘‘As condições políticas do País também interferem nesse cenário. Se a crise política no Governo se agravar e os desdobramentos afetarem a economia, pode ocorrer uma alteração nessa previsão otimista de crescimento’’, falou, referindo-se à crise política desencadeada pelas denúncias do pagamento de um mensalão aos parlamentares e que causou a saída do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu (PT).

 

Segunda-Feira, 20 de Junho de 2005, 07:01

Empresários também enfrentam dificuldades

Da Reportagem


 

  Enquanto as ocupações que exigem menor qualificação movimentam o mercado de trabalho, algumas vagas destinadas a profissionais com certo nível de capacitação não têm sido preenchidas por falta de pessoas preparadas.
  O cenário vem forçando empresas da região a garimparem, em outras cidades, funcionários para atuar em segmentos com potencial de crescimento. A carência foi identificada pelo diretor da Catho Consultoria em Recursos Humanos, Claudio Nishikawara.
  De acordo com ele, há uma grande procura por profissionais do setor contábil, com ou sem conhecimento de inglês, mas os candidatos não atendem os requisitos necessários.
  ‘‘Infelizmente, não temos conseguido selecionar pessoas para essas vagas. O nível técnico tem sido muito baixo’’.
  As empresas que precisam de funcionários para atuar com tecnologia da informação, conforme ele, também encontram essa mão-de-obra com mais facilidade na Grande São Paulo.
  A área portuária também foi citada por Nishikawara, que apontou a falta de profissionais aptos a lidar com o departamento de custeio de navios e que tenham inglês fluente. ‘‘Isso não existe no mercado, não tem pessoal disponível. Muitos já foram para São Paulo e estão bem remunerados. Não voltariam para receber menos’’.
  As vagas de despachante aduaneiro, também com inglês fluente, não são preenchidas a curto prazo, como contou o diretor.
  Sem necessitar de uma qualificação específica, os bons vendedores de loja também estão em
‘‘extinção’’ na opinião dele. Os clientes reclamam da falta de comprometimento dos empregados com o trabalho.
  O consultor analisou que, com tantas vagas para serem preenchidas, o mercado segue a lei da oferta e da procura, subindo os salários para atrair os profissionais mais cobiçados. ‘‘Algumas empresas acabam investindo na qualificação de seu pessoal, às vezes criando até faculdades’’.
  Otimista quanto a atual fase do mercado, a gerente de Santos da Organização Gelre, Ada Francini, constatou aumento de 20% nas contratações. ‘‘Do Dia das Mães para cá houve uma melhora’’.
  Funções ligadas ao comércio, como promotores e representantes de venda, estão sendo mais requisitadas. No entanto, Ada também destacou que a grande procura por uma colocação no mercado pode gerar, dependendo da área, a queda nos salários. ‘‘Mas também ocorre o oposto. Quando não há o profissional no perfil que o empregador busca, o empresário é flexível na negociação salarial’’.
  Na área do Comércio Exterior, Ada diagnosticou a dificuldade na admissão de quem atenda às exigências do empresariado, mas afirmou que as vagas destinadas à mão-de-obra não-qualificada são preenchidas com mais facilidade.

 

 



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