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JOVENS NO VERMELHO
Entrevista do Prof. Alberto Claro, ao Jornal da Orla, sobre o consumismo dos jovens


 Mírian Ribeiro

O prazer da satisfação imediata, o acesso facilitado ao crédito, o impulso pelo consumo e a inexperiência para organizar as próprias finanças são alguns dos motivos que levam os jovens, incluindo os adolescentes, a se endividarem cada vez mais. As armadilhas estão montadas nas ruas, nas lojas, através da televisão e até dentro das faculdades. Nunca se ofereceu tanto dinheiro, e de forma tão fácil. É só assinar para obter o financiamento do bem desejado, cartão de crédito, cheque especial. O final da história para muitos é ter seu nome na lista de maus pagadores do Serasa, ficar com restrição ao crédito e iniciar a vida adulta no vermelho, o que pode prejudicar, inclusive, seu trânsito no mercado de trabalho.

Planejar o orçamento avaliando o que ganha e o que pode gastar, pesquisar preços, e tentar resistir aos apelos publicitários que levam à compra de coisas absolutamente desnecessárias ou que podem aguardar momento melhor. A regra parece simples, mas, principalmente no caso do jovem, é preciso antes aprender a controlar a ansiedade na hora da compra para evitar o endividamento.

O comportamento do jovem frente ao consumo também é bastante influenciado pelo aspecto social. "Ele, que vive uma fase de afirmação, deseja os símbolos de status do grupo social ao qual quer pertencer", diz o professor de marketing e administração, José Alberto Claro, coordenador dos cursos de pós-graduação da UniSantos.

Segundo o professor, o jovem precisa ser bem orientado para não perder o foco e a visão da realidade. "Hoje o mercado de consumo tem uma infinidade de ofertas e seduções, que vão de roupas às novidades tecnológicas. É fundamental saber avaliar se aquilo é realmente necessário em sua vida". Ele cita o exemplo de uma aluna que, inadimplente na faculdade, exibiu o novo celular que tira fotos. "Começar a vida no vermelho é muito preocupante e, se o comportamento não for corrigido, pode se tornar sistemático, acompanhando o indivíduo por toda a vida adulta".

O coordenador do Cidoc, o advogado João Vieira, aconselha os jovens a consultar os pais ou alguém do ramo antes de fazerem uma transação financeira, tomando o cuidado de ler o contrato de ponta a ponta. "O jovem se deixa levar pela impetuosidade, pela vontade de ter, depois não tem como pagar, começa a vida com restrição ao crédito. É importante fazer uma análise fria da situação do bolso dele e dos pais", diz. Caso já esteja endividado, ele aconselha a negociar o débito, "há casos de redução em até 90% do valor". O interessado pode também procurar orientação junto ao Cidoc, na rua Bahia, 138, no Gonzaga.

Dinheiro não nasce em árvore

Na opinião do consultor financeiro Cláudio Boriola, especialista em Economia Doméstica e Direitos do Consumidor, o grande problema é a falta da disciplina de Educação Financeira nas grades curriculares. "Se os jovens não forem educados, a tendência é aumentar ainda mais a inadimplência". O Distrito Federal sai na frente: a partir de 2007, todas as escolas da rede pública terão a disciplina no currículo escolar. Boriola defende a concessão de mesada a partir dos 7 anos de idade. "É o melhor método para ensinar as crianças a lidar com dinheiro. A mesada ensina, na prática, conceitos de planejamento, causa e efeito, e responsabilidade. Se a criança decide gastar toda a sua mesada antes do próximo recebimento, irá passar por um período de privação de gastos. Se desejar algo que excede o valor da sua mesada, então deve poupar", explica o consultor, que aconselha os pais a orientarem os filhos a comprar sempre à vista, para evitar juros. "Deve-se mostrar o peso dos juros no orçamento e que dinheiro não se recebe de graça, mas sim pelo trabalho". Segundo ele, antes de se dar mesada aos filhos, é importante mostrar o que é essencial e o que supérfluo na hora de gastar dinheiro.

Pesquisa aponta crescimento da inadimplência

Pesquisa divulgada pela Telecheque revelou que jovens com até 20 anos representam 16% dos inadimplentes no primeiro semestre de 2006. No mesmo período do ano passado eles eram em 7%. Na avaliação da empresa, que registra o total de cheques sem fundo no Brasil, o resultado é reflexo da crescente entrada dos jovens no mercado de concessão de crédito, assim como do aumento das contas universitárias. Outro levantamento, feito pela Associação Comercial de São Paulo, apontou que 6% do total de nomes que figuram no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) correspondem a jovens com até 21 anos.

Segundo o vice-presidente da Telecheque, José Antônio Praxedes, o perfil do jovem endividado é bem característico. ‘Estudando ou não, ele está entrando no mercado de trabalho. Tem o primeiro emprego, conta-salário, talão de cheques. Sente-se apto para consumir. Acaba entrando numa fase de deslumbramento pela facilidade de crédito. Além de sentir-se poderoso com uma conta no banco, o jovem é vítima das redes de varejo. Nas grandes lojas, quem define o crédito é o cliente. Com tamanha facilidade e bombardeado pelas campanhas publicitárias, ele acaba se descontrolando".

Fazendo o pé-de-meia

Tão familiar aos jovens, a internet tornou-se uma vantajosa opção para aplicar o dinheiro poupado, mesmo que seja uma pequena quantia, orienta o consultor financeiro Ricardo Conzo. "Hoje, há um leque amplo para aplicações e de grande complexidade. O mercado, altamente volátil e interligado, tenta garimpar o dinheiro, daí tanta oferta de crédito. Com o advento da internet a aplicação ficou mais democrática, qualquer pessoa de qualquer idade e poder financeiro pode fazer com segurança, basta conhecer como funciona".

Segundo Ricardo Conzo, a internet está se tornando o segundo mercado financeiro do Brasil para a compra de ações, opções e aplicações em futuros, fundos de investimentos ou diretamente no Tesouro Nacional. A vantagem é que a internet elimina os intermediários, o que permite que ofereça taxas de administração de fundos e ativos financeiros bem inferiores às cobradas no mercado convencional. Se aplicar R$ 10 mil em títulos de renda fixa do governo, por exemplo, o investidor pagará taxa de administração anual ao banco (no caso, o intermediário) em torno de 3 a 4%. Pela internet, este custo será em média de 0,4%.

"No Brasil, de 70 a 80% dos investidores aplicam em renda fixa ou títulos do governo, o que revela um perfil conservador", diz Conzo. São aplicações seguras, embora possam render menos do que apostas mais ousadas. Antes de decidir pela aplicação, o consultor financeiro orienta os jovens a se informar, fazendo cursos, ouvindo a opinião de duas ou mais pessoas que entendem do assunto e, principalmente, descobrindo seu perfil: arrojado, moderado ou conservador. "O mercado oferece chance para qualquer dinheiro e é possível lucrar o dobro da caderneta de poupança, sem risco", afirma.

Outra recomendação: na compra de determinado produto, evite crediários longos, faça pelo menos três orçamentos (há grandes oscilações nos preços) e deixe seu dinheiro guardado para aproveitar as promoções. "Muitas empresas estão ganhando dinheiro com os juros do crediário e não propriamente com a venda da mercadoria".

http://www.jornaldaorla.com.br/arquivo/3215.shtml



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